Radar na Copa



As informações e as curiosidades da Copa do Mundo da Rússia com a análise do colunista Rafael Morais

A importância de um jogador finlandês para o sucesso da Croácia na Copa

Rafael Morais

Pryiy Soiri é um nome pouco conhecido para aqueles que acompanham a seleção da Croácia. Porém, Soiri, um finlandês de 23 anos que joga pelo Shakhtyor Soligorski, da Bielorrúsia, teve um papel chave na ascensão da seleção croata.

É muito provável que nenhum desses eventos — milhares de torcedores croatas com as caras pintadas na Rússia e na Croácia, viradas heroicas na Copa do Mundo e especulação sobre Luka Modric ganhar a Bola de Ouro — não teria acontecido não fosse por Soiri.

De fato, é até fácil imaginar que a Croácia não se qualificaria para a Copa sem ele, e muito provavelmente, poucos lugares no mundo, com exceção da Croácia e do Oriente Médio, estariam falando sobre o treinador Zlatko Dalic agora.

A Croácia jogou contra a Finlândia em casa pelas eliminatórias europeias em Outubro, depois de três jogos péssimos. A equipe tinha perdido para a Islândia e Turquia fora de casa, além de uma vitória sofrida sobre a fraca seleção de Kosovo em casa. O time não tinha identidade, atacava mal e possuía uma defesa errática. Mesmo Modric, que era regularmente o melhor jogador do time, não conseguia transformar o time do estado letárgico que se encontrava.

Contudo, os líderes da federação da Croácia, com a ajuda de seus leais jornalistas, espalharam estrategicamente através da grande mídia croata que tudo estava bem. Eles se certificaram em comunicar a todos os canais que tiveram acesso o total apoio ao então treinador, Ante Cacic, cujo contrato tinha sido prorrogado naquele mesmo ano.

A Croácia ainda liderava o grupo, empatada em pontos com a Islândia e dois a frente da Turquia e Ucrânia. Eles ainda tinham tudo em suas mãos com mais dois jogos a serem disputados e estava se preparando para o jogo em Kiev, que selaria a classificação independentemente dos outros resultados. A partida contra a Finlândia, uma seleção que não tinha chances de se classificar, era vista como apenas um pequeno incômodo a ser enfrentado.

“Por que vocês estão sendo tão pessimistas?” — Cacic perguntou à imprensa no dia antes do jogo contra a Finlândia, tentando dar a impressão de ser um homem que sabia o que estava fazendo, mas falhando em fazê-lo.

No dia seguinte seu time sofria para vencer a não tão forte defesa finlandesa, mas as coisas pareceram voltar à normalidade quando Mandzukic marcou aos 12 minutos da segunda etapa. Tudo parecia estar onde deveria estar; os jornalistas já estavam finalizando as matérias sobre a vitória croata assim que o apito final soasse, os torcedores croatas já deixavam o pequeno estádio que sequer estava lotado, e aqueles que assistiam pela televisão aguardavam o fim de mais uma vitória tediosa e não convincente.

Porém, 10 minutos depois de estrear pela seleção finlandesa, o meio-campista Soiri recebe uma bola longa por trás da defesa croata e bate o goleiro Subasic, coroando sua primeiro jogo pela Finlândia.

De repente, tudo estava de cabeça para baixo. A Croácia precisava vencer a Ucrânia para se classificar para os playoffs das Eliminatórias.

Aquele incidente, o toque que resultou no gol, fez toda diferença no mundo caótico do futebol croata. O técnico Cacic foi demitido no dia seguinte e seu sucessor foi apontado horas antes do time embarcar para a Ucrânia.

Zlatko Dalic tinha assistido a Croácia jogar na noite anterior; no dia seguinte tornou-se treinador, tendo encontrado seus jogadores pela primeira vez pouco antes de realizarem o check-in no aeroporto. Todos os auxiliares de Cacic foram demitidos com a exceção do treinador de goleiros. “Porque pareceria ridículo apenas ele sentado no banco de reservas” disse Suker, o presidente da federação.

Não foi brincadeira — ele realmente justificou a decisão de manter o treinador de goleiro por essa razão. Mas de alguma forma, tudo deu certo. Dalic, que teve uma carreira pouco notável como treinador na Albânia e Croácia antes de se mudar para o Oriente Médio, onde foi vice campeão da Liga dos Campeões da Ásia em 2016. Com Dalic, a Croácia ganhou da Ucrânia e lidou facilmente com a Grécia nos playoffs, chegando agora à final da Copa.

Que a Croácia teve um pouco de sorte em seu caminho é inegável, porém mais que tudo o elenco mostrou ter raça e uma força mental incrível, algo que poucos em seu país natal acreditaram que tivessem.

Mesmo que o predecessor de Dalic tivesse continuado no comando e se classificado para o Mundial, o time certamente não teria chegado tão longe na competição. Méritos para Dalic, que de interino passou a finalista de uma Copa do Mundo.

Graças a um jogador, que por agora já teve seu nome esquecido na Croácia, uma série de eventos foi desencadeada, e Soiri merece não ter o seu nome esquecido pelos torcedores e jogadores do time croata.

Foto: Divulgação/FIFA